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Mitos comuns entre TDAH e TEA


Você já se pegou assistindo a um vídeo no TikTok e pensando: “Será que eu tenho TDAH?”. Ou então viu um post sobre autismo “leve” e pensou: “Será que isso explica minhas dificuldades sociais?”


Se sim, você não está sozinho.


Nos últimos anos, termos como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TEA (Transtorno do Espectro Autista) saíram dos consultórios e entraram nas redes sociais.






Viraram tema de vídeos, memes, testes online e carrosséis de autoajuda. E isso teve um lado positivo: muita gente finalmente conseguiu nomear o que sempre sentiu, e buscar ajuda com mais clareza. 


Mas, junto com a visibilidade, veio também o risco da banalização. Como se toda dificuldade em socializar fosse autismo, e toda distração fosse TDAH. Mas não é.


Antes de tudo: o que TDAH e TEA têm em comum, e onde se separam?


TDAH e TEA estão dentro da mesma categoria nos manuais diagnósticos: transtornos do neurodesenvolvimento. Isso significa que têm início precoce, impacto funcional e raízes neurobiológicas. Mas compartilham o nome do grupo — não os mesmos mecanismos cerebrais. O TDAH afeta principalmente os sistemas de autorregulação cognitiva e emocional. Isso inclui atenção sustentada, inibição de impulsos, organização de tarefas, flexibilidade mental e regulação emocional. Por trás disso, costuma haver comprometimento nas funções executivas.


Já o TEA está mais relacionado à forma como a pessoa percebe e interpreta o mundo social, sensorial e emocional. A dificuldade não está em manter o foco em tarefas, mas sim, na comunicação e interação social em vários contextos, Padrões repetitivos e restritos de comportamento, atividades ou interesses. Esses sinais estão ligados a alterações em redes cerebrais associadas à cognição social (como a default mode network), integração sensorial e flexibilidade cognitiva. O cérebro no TEA tende a operar com foco detalhado, menos responsivo às pistas sociais implícitas e com menos tolerância à imprevisibilidade.


A seguir, vamos desmembrar os mitos mais comuns sobre esses dois diagnósticos, trazendo o que a neuropsicologia e a psicologia baseada em evidências tem mostrado nos últimos anos. Vamos lá?


1 -  “Se a pessoa é inteligente, organizada ou produtiva, então não pode ter TDAH nem TEA”


Essa ideia é uma das mais comuns e uma das que mais atrasam o diagnóstico. Tanto o TDAH quanto o TEA não são definidos por capacidade intelectual. São transtornos do funcionamento, não da inteligência. Muitas pessoas neurodivergentes desenvolvem estratégias altamente funcionais para “compensar” suas dificuldades. E é aí que está o ponto: compensar não é o mesmo que não ter.


Se o esforço para fazer o básico custa caro demais, se tudo exige controle constante, se há um sofrimento oculto para funcionar, então alguma coisa precisa ser olhada. Diagnóstico não se faz com base em “performance externa”. Se faz com base em funcionamento real, e o quanto ele impacta a vida da pessoa.


2 - “TDAH e TEA são variações da mesma coisa”


O TDAH afeta principalmente a autorregulação, da atenção, do impulso, da emoção. A pessoa quer focar, quer organizar, quer começar uma tarefa… mas o cérebro escorrega. No TEA, o núcleo está na forma como a pessoa percebe o mundo, processa estímulos, entende relações sociais e reage a mudanças.


Na prática, isso gera confusões. Ambos podem apresentar dificuldade social? Sim. Ambos podem ter inquietação ou comportamentos repetitivos? Sim.

Mas os motivos por trás disso são completamente diferentes. E é aí que a psicologia faz a diferença: olhar para o porquê, e não só para o o quê.


3- “TDAH e TEA viraram moda”


Essa é uma das frases mais repetidas quando o assunto aparece na mídia. Parece sugerir que esses diagnósticos seriam só um modismo, uma “desculpa da geração atual”. Mas a realidade é outra. O que cresceu não foi a quantidade de pessoas com sintomas,  e sim a possibilidade de falar sobre eles. Pela primeira vez, muita gente tem acesso a informações que antes ficavam restritas a livros técnicos ou consultórios. Essa visibilidade é positiva, porque faz pessoas que sempre se sentiram “fora da curva” entenderem que aquilo pode ter nome, explicação e tratamento.


Ao mesmo tempo, de fato, é preciso cuidado. Diagnosticar exige avaliar história de vida, contexto e impacto funcional, algo que só pode ser feito por um profissional qualificado.


Além disso, nem todo diagnóstico feito rapidamente está correto, tanto o autodiagnóstico quanto avaliações sem critério podem atrasar um tratamento eficaz. Por isso, a informação deve ser vista como um ponto de partida, não como ponto final. Redes sociais ajudam a abrir portas, mas o passo seguinte, quando existe suspeita, é procurar uma escuta clínica criteriosa. No fim, o que chamam de “moda” é, na verdade, um movimento de tirar do silêncio dificuldades que sempre existiram.


4-  “É só criar rotina e força de vontade que resolve”


Essa é uma das ideias mais equivocadas e, ao mesmo tempo, mais comuns quando se fala em TDAH ou TEA.  Ela parte de um pressuposto enganoso: o de que essas condições seriam resultado de preguiça, falta de disciplina ou mau caráter, qQuando, na verdade, estamos falando de diferenças reais no funcionamento do cérebro.


O que, de fora, parece resistência ou descaso, por dentro muitas vezes é um esforço imenso para dar conta do básico. Rotina e estratégia funcionam muito melhor quando partem de um lugar de compreensão. E é aí que entra a avaliação profissional: o diagnóstico não serve para rotular, e sim para mapear. Ele ajuda a diferenciar o que está acontecendo, e permitir que as estratégias sejam ajustadas para a realidade daquela pessoa, em vez de seguir receitas genéricas que só geram mais frustração.


Criar rotina ajuda. Mas achar que ela, sozinha, dá conta de tudo é transformar uma dificuldade neurobiológica em um julgamento moral.


5 - “Todo mundo tem um pouco de TDAH ou é um pouco tímido... no fundo, é frescura.”


Essa frase é muito comum, mas revela uma confusão importante entre traços de personalidade e transtornos clínicos. Esquecer as chaves ou não gostar de festa não faz de alguém neurodivergente.


Na clínica, o que diferencia um traço comum de um transtorno está no padrão e no impacto:

  • Intensidade: no TDAH ou TEA, esses comportamentos aparecem em um grau muito mais forte do que o habitual.

  • Persistência: não é algo que acontece só de vez em quando ou em situações específicas; está presente ao longo da vida, desde cedo.

  • Prejuízo: essas características não ficam restritas a um contexto. Elas comprometem várias áreas da vida — estudos, trabalho, relacionamentos e autoestima.


Quando alguém diz “eu também esqueço as coisas” ou “eu também sou tímido”, está comparando momentos pontuais da própria experiência com algo que, para quem tem um transtorno, é uma constante.


Mas TDAH e TEA podem coexistir?


E sim, pode acontecer. O nome disso é comorbidade e quando isso acontece, os sintomas não se misturam em um só, eles se somam. Ou seja: é possível que uma pessoa seja ao mesmo tempo muito sensível a barulhos (TEA) e, ainda assim, esqueça de pagar contas porque se distrai facilmente (TDAH). Ela pode ter grande necessidade de rotina e previsibilidade (TEA), mas viver perdendo horários ou atrasando tarefas (TDAH).


Para avaliar, o profissional não se baseia só na descrição dos sintomas.Mas três aspectos principais:


  • História de desenvolvimento: sinais presentes desde a infância, como eram na escola, em casa e em diferentes contextos.

  • Contexto atual e impacto funcional: em quais áreas a pessoa está tendo prejuízo (estudos, trabalho, vida social, autocuidado).

  • Critérios específicos de cada transtorno: usando entrevistas clínicas, questionários validados, relatos da família e testes neuropsicológicos


Por que isso importa?


Quando o diagnóstico é preciso, o tratamento também muda.

Algumas intervenções serão voltadas para autorregulação, foco e organização (mais ligadas ao TDAH). Outras para habilidades sociais, manejo sensorial e previsibilidade (mais ligadas ao TEA).


Em resumo

TDAH e TEA têm impacto profundo na vida de quem convive com essas condições e não podem ser reduzidos a rótulos superficiais. Se você se identifica com algum dos sinais ou tem dúvidas sobre o seu funcionamento, o caminho mais seguro é buscar uma avaliação qualificada. Um bom diagnóstico não é um fim em si mesmo: ele abre portas para estratégias personalizadas, que respeitam a sua história e o seu ritmo. 


Na Clínica Interfaces, trabalhamos com uma equipe preparada. Nossa proposta é entender a pessoa como um todo, não só os sintomas, e oferecer um acompanhamento baseado em ciência, acolhimento e individualidade.



Referências: 


Barlow, D. H. (Org.), & Marques da Rosa, A. C. S. (Trad.). (2022). Manual clínico dos transtornos psicológicos: Tratamento passo a passo (6ª ed.). Artmed.


Maciel, C., Manfrim, E. B., & Poggi, J. (Orgs.). (2026). TEA, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Sinopsys.


Dalgalarrondo, P. (2018). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais (Edição em português). Artmed.


Bosa, C. A., & Teixeira, M. C. T. V. (Eds.). (2017). Autismo: avaliação psicológica e neuropsicológica. Hogrefe


Barkley, R. A. (2020). TDAH: transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (L. R. Gil, Trad.). Autêntica


American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., Text Revision). American Psychiatric Publishing.

 
 
 

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